Selecionar album para tocar

previous next
Palhaços da Avenida
próximo show  -   Feijoada Paroano Sai Milhó no Santa Música
FALTAM:
DIAS HORAS MINUTOS SEGUNDOS
Player
 

História

Foto do carnaval de 1971

Foto do carnaval de 1971

O Bairro da Saúde, localizado no centro de Salvador testemunhou o surgimento do Paroano Sai Milhó que na tranquilidade, ainda reinante, de suas ruas se formou por puro entretenimento. A proximidade com o centro da cidade, onde o carnaval de rua de Salvador desfilava, propiciava grandes momentos de euforia.

Os moradores jovens dessa área viviam intensamente suas idades e seus oportunos desejos. Os indispensáveis namoros tinham as serenatas como ingredientes poderosos para abrir caminhos e cevar corações. Os rapazes seresteiros, cheios de idéias e vontades, aproveitando a coqueluche da época, bem divulgada em discos e pelos rádios, também organizavam seus conjuntos vocais. Como deixou registrado Janjão, fundador do Paroano Sai Milhó: “No início dos anos 60, em cada canto da cidade se construía um conjunto vocal. No país, também, já tantos: Irakitan, Tamba, Jongo, Farroupilha, Golden Boys, Marayá, e outros. Cantava-se para gozar a ‘trança das vozes’, o acorde inteiro”. E a turma do Godinho se fazia representar com o Trio Xangô, formado por Janjão, Pimentel e Ari; o trio Os Praianos, com Tacyr, Raimundo José e Carlito Canarinho O Facilitário; além do persistente e informal trio das vozes afinadas de Tacyr, Fernando Bôlha D’Água e Luiz Carlos Tchê.

A cantoria gostosa e quase interminável começou no início da tarde de um Domingo de carnaval de 1963 num encontro com os grupos Trio Piratini e Irapuã, representantes de outro bairro de Salvador, Santo Antonio, e se espichou até o começo da segunda-feira. Essa experiência de puro amor pela música, fomentada pela magia e beleza do canto coletivo, potencializou ainda mais a sensibilidade de Janjão e no seu coração fez morada. Foi o sinal definitivo: em janeiro de 1964, ele aglutinou os Trios Itanajá e Praianos e nem precisou convencer Fernando Bolha D’Água, Luiz Carlos Tchê e Fan, seu irmão e caçula do grupo, com ousados 16 anos. Segundo Tchê, Janjão assumiu a liderança da rapaziado e provocou: “- Já que vocês gostam de cantar, vamos cantar juntos e fazer um carnaval diferente, vocalizando músicas conhecidas do público e algumas carnavalescas de sucesso”.

Com nove integrantes o Paroano Sai Milhó estreou no Carnaval de 64. De acordo com informações de alguns de seus fundadores, a sonoridade do grupo priorizava as vozes e as cordas, e existia uma grande preocupação com o volume da percussão pra que não as cobrisse. Não havia uma intenção inicial de se criar um grupo fixo, mas o sucesso daqueles rapazes tornou inevitável que o grupo voltasse a se reunir próximo ao Carnaval de 1965 para uma nova incursão momesca, afinal, oito dos integrantes moravam entre a Saúde e o Godinho. Uma primeira canção em homenagem ao grupo foi composta por Janjão para aquele carnaval:

Marcha do Paroano
(Antônio Carlos Mascarenhas)

Eu te prometo Paroano Sai Milhó
Vou à lua, viro a terra,
Paroano Sai Milhó.

O nosso Bloco vai brincar na avenida,
Vai cantar a sua vida,
Que é mais linda é meu amor.

O nosso bloco fará mundo ser criança,
Espalhando a esperança,
Paroano Sai Milhó.

Paroano Sai Milhó,
Todo mundo alegrar
De domingo à quarta-feira,
De hoje até a vida inteira,
Paroano Sai Milhó.

Nos primeiros anos o Paroano repetia sempre o ritual de se aprontar no Largo do Godinho, indo depois em direção às ruas do centro da cidade aonde chegavam a tocar até por oito horas. O repertório dos primeiros anos não era tão extenso, portanto era necessário repetir várias vezes as mesmas músicas. Com o passar dos anos o grupo precisou adequar o seu itinerário em função do crescimento do Carnaval de Salvador, com a presença dos blocos maiores de carnavais com sons amplificados de trios elétricos.

A proposta inicial do grupo era o resgate de canções dos antigos carnavais em uma roupagem nova, com a cara da música daquela época, vocalizada, sempre nos ritmos carnavalescos de samba e marcha-rancho. Com o passar dos anos e com certo esgotamento desse repertório antigo, surgiu a necessidade de inovar o repertório e os gêneros musicais com a inclusão de canções mais atuais, inclusive de algumas que não eram próprias do carnaval. O ijexá, o frevo e o galope, gêneros que se impuseram no Carnaval soteropolitano nas décadas de 70 e 80 passaram a ter espaço no repertório. A estrutura de canto a três vozes, um dos elementos que mais diferencia o Paroano dos outros grupos de Carnaval se manteve, se não igual, muito semelhante ao início. Houve então uma inversão natural do propósito inicial do grupo que foi provocada pela sua longevidade e pelas transformações que ocorreram no Carnaval ao longo desses mais de 50 anos. Boa parte do repertório do Paroano de hoje é composta de canções atuais que recebem uma roupagem “antiga”. O estilo do início não envelheceu, entretanto, apenas amadureceu. Essa inversão é uma prova inconteste da resistência em manter-se fiel às origens na medida do possível. É também uma prova de que é possível manter-se atual sem se corromper.

 

 
 
previous next
X